Travo

Em 6 anos nunca te vi, mas ontem, quando fumámos uma cigarrilha juntos no alpendre frio ao luar, amei-te.
Deus, de onde vem o amor? Vivemos seis anos juntos cheios de amor, amor e discussões, mas amor. Só que ontem, amei-te.
Seguraste na cigarrilha com a certeza iluminada de quem dá um último suspiro. Nunca vi ninguém a segurar nada nas suas mãos como tu seguraste. Usaste três dedos, ou foram dois? E de repente senti- me materializado no mundo.
Lúcido e nítido senti sem palavras que te amava. Não sei para onde foram os seis anos, esvaíram-se como cinzas que agora fazem parte da história.
Passaste-me a cigarrilha e dei um travo sem saber como segurá-la, estúpido e presente. Procurei algo no sabor do fumo e talvez me tenha apercebido que não existe nada para procurar nesta vida. Encontramo-nos e desencontramo-nos mais ou menos por acaso, e se tivermos sorte abrimos um dia os olhos para ver mãos assim.
Devolvo-te a cigarrilha e dás um travo rápido. A ponta ilumina-se e nem um momento a seguir o fumo escapa-te pela boca entreaberta. Nesse momento amei-te eternamente e percebi que 6 anos não são nada, 6 anos são como seis segundos.
Quão fugaz é a eternidade, um rodopio cego e incandescente. Nunca vi ninguém a fumar com a rapidez soprada como tu, uma rapidez enraizada e inevitável como a força da gravidade.
E no final da cigarrilha?
Para onde vai a eternidade quando as mãos deixam de segurar e a ponta laranja se extingue?
Para lado nenhum. Ela paira imóvel e etérea e nós pobres doidos mergulhamos e com sorte dançamo-la até ao nascer do sol.
Mas chegou a hora de descruzar as mãos, de soltar a respiração e andar à beira-mar deixando e querendo ver as pegadas apagadas pela maré.
A lua sempre nos trás novas marés, novas eternidades, novas cigarrilhas e mãos para nos segurar.

20/02/2022

Cinzento

Está um dia cinzento de brisa suave.
Penso cinzento em como não tenho nada para escrever a não ser isto, verificações fúteis do presente e do imediato.
O cinzento não me deixa agarrar a nada, e sinto-me livre e rápido como os raios de sol que atravessam a atmosfera sem aquecer nada por não terem objeto por onde refletir o seu calor.
É um dia de mudanças.
Também o café está cinzento, mesmo estando delicioso como todos os dias.
Um dia como uma crisálida perfeita em que toda a existência à minha volta se funde numa polpa de cor indeterminada, cizenta, e mais tarde convalesce num belo dia de sol ou num belo dia de chuva e vento. Dias perfeitos que respiram tranquilos, até os pássaros à minha volta parecem cantar com mais vigor do que nos outros dias.
Encho-me de ar limpo, endireito as costas e relaxo os ombros. Absorvo-me e transcendo-me por instantes que não duram sequer um piscar de olhos na sua eternidade.
Sinto futuros hipotéticos como barro suave ainda por moldar nas minhas mãos.
Amasso este futuro nestas minhas mãos fortes e ombros preparados, e deito fora todos os espelhos falsos que tenho em casa.
Este cinzento limpo é mais puro do que sei lá o quê, penso eu enquanto observo uma abelha e o remexer da terra na calçada pela a força do vento causado pelo seu bater de asas.
Hoje transformo o néctar do passado no mel para o futuro, e assim me sustenho ano após ano.

30/05/2022

Solitude

In my solitude, what does my spirit reach for?
The dreaded car sounds sound so sweet to me today.
Where do they come from, and where are they going?
Rumi sits next to me, a good gift from a better friend. In him I see the whirling infinitude that makes and breaks everyone.
I am everyone I and I am myself too.
Butterflies never fail to bring me back to this world.
They fly so gently, flutter so elegantly, eternally gliding towards better tomorrows, even though they don’t know what that means, and neither do I.
I am kissed by the sun, I feel so sensual in its light. Ah, and what a bright light it is, revealing everything.
I fly above the trap of my wishes, these polished mirrors bright and alluring, and the dog stands next to me just as she is, being always there without following me.
I taught her to be my master, and now in her I see beauty and salvation.
Does anyone realize what it is to be alive, do I?
I have searched so much, asked and wondered so much, so much, so much.
I am that search, that wonder, it runs in my blood and holy spirit, and here is what I have found so far –
To be alive is the greatest thing there is.

23/02/2022

Poemas sob uma amendoeira algarvia

Nostalgia Algarvia

Ah, Algarve, quando eu era criança tu eras a minha terra prometida.
Eu não o sabia, mas o meu corpo sentia-te o calor e o doce e estava sempre ansioso por voltar.
Oferecias tanto, e nós queríamos tudo.
Oferecias mar e praia, gelados e jantares, passeios e amigos, um espaço liberto da história e da vida, como um parque de diversões imenso e eterno onde cada um encontra aquilo que prefere.
A mim trouxeste amor e amizades.
Quantos amigos e namoradas trouxe eu para te partilhar com eles? E para partilhá-los contigo não menos.
Ah, algarve, trouxeste-me fotografias de um passado longínquo, os meus avós e pais e tios quando tinham a minha idade e também te viveram. Unidos no passado em ti, grande pacifista que és.
As ruínas de hoje lembram-me das glórias e amores passados, e as ruínas fazem-se tão belas como as memórias, porque são beijadas por ti.
Ah, algarve, quando eu era criança–
E hoje que sou adulto e moro em ti, transformo-me lentamente em não sei bem o quê, espero conseguir trazer comigo sempre a tua quente brisa e doce aroma.

As folhas no chão

As folhas no chão tão castanhas e douradas,
A luz amarela e transparente salpicada por entre os ramos da árvore.
As pequenas palhas já secas, crescidas entre as pedras da calçada.
Um pedaço de vista tão pequeno, tão insignificante, tão belo.
A chegada do outono anunciada nas sombras douradas, nas folhas secas, na brisa que espreita, no miar do Baltazar que mergulha neste cenário.
Também existem alguns verdes e amarelos nas folhas espalhadas.
Mas aquilo que mais prazer me dá é o vento.
O sopro da vida na natureza plácida.
O som de fundo e da nossa volta.
Vem do desconhecido e desaparece para o infinito.
Tanta liberdade que o vento tem, pobre louco quem o tenta capturar.
O melhor que podemos fazer é surfá-lo.
Será que o vento se sente livre, ou sopra daqui para ali por forças superiores a si mesmo?
O vento não tem escolha, mas é magnânimo no seu soprar.
E nós, que escolha temos?

Cadela

A cadela com as suas barbas pelo chão
Ouve o chamamento da rola e levanta o olhar.
O seu focinho aponta para os fantasmas,
São eles que alimentam esta vida.
Ela levanta-se e escolhe cuidadosamente uma amêndoa caída.
Parte-a nos seus dentes robustos, come-a,
E marca o tempo com o seu mastigar.

Árvores, catedrais

Amendoeira, prelúdio

Estou aqui sentado, vejo aqueles que amo à minha frente. Sou abençoado.
Chove árvore, preconiza o final do verão.
Verão, quando dás finalmente lugar ao Outono?
Já te sinto as costas frias.

Amendoeira

Quando eu era criança já tu eras adulta,
Agora que estou velho vejo-te anciã,
Quantos anos terás mais para dar?
Ontem choveste flores em mim, e eu o que te dei?
Uma infância perdida, uma amêndoa verde comida?
Estás aqui e fazes parte deste sítio e de mim.
Não, hoje vejo que eu e este sítio é que fazemos parte de ti.
Existes esquecida, e que existência mais real pode ser tida?
Agora que te vejo e cheiro e sinto, não sei dizer se és mais real ou mais memória.
Espírito algarvio, a tua brisa quente sopra do passado,
E para onde vai?

Azinheira

Azinheira que está tão perto e tão discreta,
Não tenhas medo de crescer,
És jovem e vigorosa, porque te escondes?
Por não seres oliveira é que gosto de ti,
Pela tua fruta amarga ainda guerras serão travadas,
Porque te escondes?

Pinheiro Manso

A tua capa abraça-nos ternuramente,
Quente, como esta página onde escrevo estes versos.
Estiveste sempre lá e eu não dei por ti,
Agora amo-te como quem ama o oceano.
Dás o fruto mais delicioso de todas as árvores
Mas nós não o colhemos. Satisfaz-nos a ideia do teu sabor.
A tua copa é quente mas a tua sombra refresca-nos o verão.
És como um bróculo que respira vida e emana liberdade, e todos os anos cresces sem darmos por ti, até que um dia te fazes imenso, quase de repente, mas nós é que tínhamos os olhos fechados.
Pinheiro manso, és, estás, foste, serás.

Eucalipto

O teu aroma é como a tela para a minha infância,
Fresco e verde, doce perfume que marca a chegada do verão.
Ergues-te alto e imponente, indiferente ao tempo e ao vento que passam por ti.
De quando a quando ofereces uma pernada aos deuses, é o preço a pagar pela tua insolência, quem te mandou chegar aos céus?
Ai de nós que estejamos prolongados sob o teu albergue, um dia haveremos de sentir o teu chicote.
Por isso te amamos, selvagem e livre como és.
Dizem que não pertences a esta terra, é porque não vêem que esta terra te pertence.

Figueira (lázaro das árvores)

Renasces eterna para o verão. Dormes no inverno.
Não é preguiça, é força de ser.
Para dares o fruto mais doce tens que dormir o sono mais profundo.
Todos se sacrificam a teus pés, mas tu nunca quiseste fazer parte disso.
O teu aroma perfuma o fim dos nossos verões,
Presente mais doce não existe.
Em ti existe um templo, está aberto metade do ano, entramos pela tua copa e lá existe a sombra que abraça.
Ah comer um figo, que alegria.

Sobreiro

Vejo-te aqui no Algarve longe dos teus irmãos Alentejanos,
Mas não te ralas muito com isso.
A tua paciência é infinita e não precisas de muito para ser, és o teu próprio universo.
Despimos-te de década em década porque és generoso e mesmo despido manténs a tua dignidade.
Ano após ano cantas ao sol, ou será um choro?
Eterno templo dos pastores cansados, és o nosso orgulho e o nosso ouro.

Laranjeira

Dá-nos laranjas e flores fragrantes, laranjeira.
Laranjeira dás-nos tudo o que és e tens, e nós recebemos, laranjeira.
Que alegria beber o sumo da tua fruta, o teu sumo, laranjeira, o teu sumo.
O teu sumo é o nectar solarengo desta terra, laranjeira, é doce doce, como dizem as pessoas daqui que precisam de vender o teu sumo para viver.
É doce doce, laranjeira, doce como os dias passados e os dias futuros, e mais doce ainda para quem o saboreia hoje.
Ah laranjeira, laranjeira, trazes música aos pomares das nossas vidas.

Hirto Cipreste

Conheço-te desde que me conheço a existir,
E és igual ao que sempre foste.
Não cresces? Eu cresci.
Gostava de te ver mais alto, mais verde, mais largo, mais antigo, tal como eu.
Mas cipreste, será verdade, olho-te com renovada atenção e parece-me ver algo mais.
Não me recordo deste teu lado ressequido, ou destes ramos secos que disparam por entre os verdes, ou a tua ponta tão cega (pouco afiada).
Ah, cipreste, afinal não me abandonaste ao tempo.
Mostras-me como a eternidade existe no momento, e como sem a morte no painel de fundo tudo seria fútil e estúpido.
Relógio discreto, o ritmo da vida também em ti deixa marcas/te marcou.
Atravesso-te o espírito e compreendo que não quero nada, mas existo.
Vejo-te ao doce sabor dos elementos e fico com vontade de dançar.
Belo cipreste, mostras-me o que é um amigo.

RAKU/Terra Sigilatta

A year ago I embarked on a pottery journey. It started as an experiment with friends but soon after I started attending a weekly class, then a bi-weekly class, and after a couple of months I got my wheel and set up a small home studio.

This September 2022, I had the absolute pleasure of attending a workshop in the awesome @oficinanaescola with the master @naiimpottery where we learned how to work with Terra Sigilatta glazing. This millenary technique uses a special kind of earthenware, which we then fired in a Raku kiln – a Japanese method of firing ceramics that involves extreme temperature shocks.
It was a 3-day workshop filled with truly lovely people that I had the pleasure to learn and create with. We made everything from scratch: mixed the terra sigilatta materials, created the pieces, polished them, decorated them, bisque-fired them (thank you Yishai and Sara!), and on the final day of the workshop, we glazed and fired our pieces in the Raku kiln.

It’s hard not to become emotional seeing the incandescent pots being carefully lifted out of the kiln. How they cool down to suddenly reveal incredible colors and patterns; the final scrubbing and washing of the pieces to reveal them in all their details. There’s a beautiful alchemy at play here, an extraordinary transformation of materials using fire and water.
To me, these pieces represent the beauty of life in all its imperfection and unpredictability. They were an exercise in expression and improvisation, a dance between careful planning (testing out materials, the different permutations of glazes & base colors), and unconscious expression.

There’s a beautiful stillness about the whole process that is very grounding and a great teacher. The mind doesn’t wonder when I’m working with ceramics. I’m entirely focused and present in it. It is also a humbling practice, as failure is a big part of the process.

Thank you Yishai for this incredible learning experience.

Escrever sem escrever

14/03/2022

Hoje apercebi-me que tenho dias em que escrevo sem caneta nem papel. Escrevo com o corpo no espaço como uma dança do espírito. Não é como sonhar acordado ou pensar, nada disso. É sentir de forma organizada, poética, ser-se atravessado pelos ritmos do mundo e marcar o compasso no coração.

Estas palavras são água do mesmo rio depois de ele já ter percorrido centenas de quilómetros mas não são escrita sem escrita. A forma mais pura de todas é aquela que não se materializa no mundo dos objetos. Permanece leve e transparente como uma criança em todo o seu potencial não manifesto. Este acto de trazer a caneta ao papel é sujo e imperfeito mas é a única maneira que temos de oferecer escrita uns aos outros.