Cinzento

Está um dia cinzento de brisa suave.
Penso cinzento em como não tenho nada para escrever a não ser isto, verificações fúteis do presente e do imediato.
O cinzento não me deixa agarrar a nada, e sinto-me livre e rápido como os raios de sol que atravessam a atmosfera sem aquecer nada por não terem objeto por onde refletir o seu calor.
É um dia de mudanças.
Também o café está cinzento, mesmo estando delicioso como todos os dias.
Um dia como uma crisálida perfeita em que toda a existência à minha volta se funde numa polpa de cor indeterminada, cizenta, e mais tarde convalesce num belo dia de sol ou num belo dia de chuva e vento. Dias perfeitos que respiram tranquilos, até os pássaros à minha volta parecem cantar com mais vigor do que nos outros dias.
Encho-me de ar limpo, endireito as costas e relaxo os ombros. Absorvo-me e transcendo-me por instantes que não duram sequer um piscar de olhos na sua eternidade.
Sinto futuros hipotéticos como barro suave ainda por moldar nas minhas mãos.
Amasso este futuro nestas minhas mãos fortes e ombros preparados, e deito fora todos os espelhos falsos que tenho em casa.
Este cinzento limpo é mais puro do que sei lá o quê, penso eu enquanto observo uma abelha e o remexer da terra na calçada pela a força do vento causado pelo seu bater de asas.
Hoje transformo o néctar do passado no mel para o futuro, e assim me sustenho ano após ano.

30/05/2022

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