O Moleiro

O moleiro velho dorme na sua velha cama no moinho mais velho da velha ilha da Madeira.
O moleiro é velho velhinho, e os seus olhos contam velhas histórias de coisas que já foram.
A casa do moleiro é dentro do seu moinho. A sua cama pequena é abraçada por três paredes e uma velha cortina, e o velho moleiro só ali cabe deitado em posição fetal.
A sua velha sala de estar também é uma sala de visitas para os visitantes e habitantes que por ali passam para ver e para levar farinha moída pelo velho moleiro.
A sala está coberta de postais e papéis cheios de santas e santos e Virgens Marias e nossos senhores Jesuses Cristos, e velhas velas apagadas, e moedas e notas velhas deixadas como donativos pelos turistas que por ali passam ao longo dos anos e são sempre os mesmos, nem velhos nem novos, mas intemporais e suspensos no tempo.
Mas o moleiro e o seu moínho são velhos, já disse que eles são velhos?

As madeiras do moinho estão gastas e marcadas pelo tempo, e parecem-se com os olhos enrugados do moleiro. O chão de madeira range e o telhado de madeira é baixo e verga as costas a quem por lá anda, como as costas vergadas e rangidas do moleiro. As paredes são apertadas e os dois quartinhos pequenos e apertados também.
Lá em baixo, a água fresca e límpida que corre e gira as pás do moinho do moleiro é como o sangue da terra que alimenta a vida. A água vem da montanha e é sempre nova, sempre a mesma mas sempre outra, e essa água gira e gira as grandes mós redondas enormes e pesadas que moem as farinhas que são hoje de trigo e de centeio.
Do que seriam as farinhas nos velhos tempos de quando o moleiro não era velho?
Mas o moleiro sempre foi velho, porque o moleiro é como um anjo que une o velho passado ao presente fugaz e nos lembra de quem somos e de onde viemos, que é da terra.
Como é possível nos esquecermos de quem somos e de onde viemos quando o velho moleiro está ali com a farinha do povo a ser moída para sempre?
Nunca senti um cheiro tão fresco e tão do presente como senti ali naquele velho antigo sujo e belo moinho, e enquanto as rodas e as mós e todos os mecanismos rodarem e fizerem farinha que é para o pão das gentes do sítio do moínho, o mundo continuará a girar, perpetuamente unido no passado e no presente.

PS. O velho moleiro é um santo e o velho moinho um santuário.

10/07/2023

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