Katana

Tenho saudades de rezar.
Tenho saudades de ser eu.
No Japão, onde era anónimo,
Sentia-me visto e abraçado pelo universo em todo o meu ser.

Cada prece, uma afirmação.
Cada pedido, uma entrega.
Deixei lá muitos incensos acesos,
Muitas moedas atiradas, muitos desejos de mim.

Cada desejo é uma tabuleta que diz – Eu sou, e eu quero!
Eu existo, e ocupo o meu lugar, que pertence a esta terra!
Os meus sonhos falam do universo, são conversas sem palavras.
De lá, trouxe comigo o sonho da katana.

O fulcro de uma alma.
A loucura de um homem, que reside na sua procura.
Cada katana conta uma história eterna –
A história da vida e da morte, entre o ser e o dormir.

Chorei quando vi aqueles objetos pela primeira vez.
Energia atómica condensada naquela ferramenta.
Uma ferramenta que nos pode ascender às estrelas.
Todo eu sou prece quando contemplo aqueles objetos sagrados.

Deixo de existir, fico vazio, para dar espaço ao infinito;
Desfaço-me sem pensar, e sou mais real nesses momentos
Do que em quaisquer outros na vida.

Aqui não sei rezar.
Perco a voz.
Não sei onde ela ficou, talvez junto da violência magnânima
Das katanas no Japão.

Também eu fui forjado no fogo da minha infância
E dos meus desejos proibidos.
Também eu sou capaz de dar vida, ou trazer morte.
Também eu tenho uma bainha prática e ritualística.

Mas tenho estado embainhado tantos anos. Tantos tantos anos.
E quando finalmente me desembainho, não vejo nada à volta para cortar.
Como um moinho sem pás numa colina onde o vento deixou de soprar.

Tanta melancolia vem de onde?
Dos materiais dos quais me fizeram,
Do processo pelo qual me criaram,
Ou do caminho que não segui?

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