Escrever sem escrever

14/03/2022

Hoje apercebi-me que tenho dias em que escrevo sem caneta nem papel. Escrevo com o corpo no espaço como uma dança do espírito. Não é como sonhar acordado ou pensar, nada disso. É sentir de forma organizada, poética, ser-se atravessado pelos ritmos do mundo e marcar o compasso no coração.

Estas palavras são água do mesmo rio depois de ele já ter percorrido centenas de quilómetros mas não são escrita sem escrita. A forma mais pura de todas é aquela que não se materializa no mundo dos objetos. Permanece leve e transparente como uma criança em todo o seu potencial não manifesto. Este acto de trazer a caneta ao papel é sujo e imperfeito mas é a única maneira que temos de oferecer escrita uns aos outros. 

Casamento, tragédia e beleza

Existe beleza sem tragédia, afinal? Um dia destes fui a um casamento bonito e trágico. Bonito de ver as famílias juntas e amigos unidos para celebrar. Foi mais bonito vê-los antes da festa do que durante a festa. No antes vê-se um ambiente natural e adocicado pela expectativa da celebração. A família a interagir e trabalhar junta em tarefas de decoração e organização do evento. Formiguinhas em sintonia, cada uma com o seu trabalho e destino bem definidos, e felizes com isso.

Na festa, junta-se a tragédia. Na festa temos finalmente a colheita dos frutos do trabalho. Não se deve descurar a força da celebração e do ritual. A tragédia está presente, no entanto. O jovem casal dá tudo, está contente, e quer trazer toda a gente para o seu barco do amor e da presença. E nós enquanto convidados temos o dever de durante aquelas horas trazer a nossa presença, despir as vergonhas e preconceitos, despir tudo, e celebrar a fundo. A tragédia é ver o quão poucas pessoas são capazes de se despirem, de tirarem a máscara e se juntarem aos noivos que tanto trabalharam e gastaram para estar ali. O mínimo que podemos fazer por eles, se não por nós próprios também, é dar tudo, brilhar alto, uma chuva de estrelas, um conjunto de luas a iluminar o céu. E porque não?

Na Olaria

A falar com a Catarina (professora de português que está grávida) sobre a Mensagem de Fernando Pessoa, e a resposta dela quando lhe perguntei se achava que “era a hora”, ela responde-me com o termo literário “deitico” – elemento linguístico que não tem sentido por si só, pelo que a sua função é fazer referência, num enunciado, à situação, ao momento de enunciação ou aos interlocutores.

Deu depois o exemplo do sinal na Farmácia que lê “Volto já”, o que faço eu? Espero 5 minutos. E passados 15 minutos o que é que faço depois de não aparecer ninguém? Talvez vá embora. O sinal “volto já” talvez estivesse ali plantado há anos. Não vamos muito a fundo nesta questão, mas sinto potencial. 

Ocorre-me também ela a dizer que tinha uma perspectiva de vida e de morte meio diferente, algo afetada pela sua história. Isto acerca do covid. Ela acaba por nos dizer que tem um cancro no sangue. Falou-se tão pouco depois nesse facto life changing. Como se ninguém simpatizasse com a pessoa dela, mas que é bom pelo menos perguntar, mostrar alguma preocupação, mas nada, eu incluído. Sente-se também ela a querer a sua própria cadeira. 

Mas ela diz-nos aquilo e nós ok tudo bem, passamos por cima dessa conversa. É de um egoísmo tal. Absurdo. Estou a adormecer a escrever isto, amanhã ou depois acabo.