Poemas sob uma amendoeira algarvia

Nostalgia Algarvia

Ah, Algarve, quando eu era criança tu eras a minha terra prometida.
Eu não o sabia, mas o meu corpo sentia-te o calor e o doce e estava sempre ansioso por voltar.
Oferecias tanto, e nós queríamos tudo.
Oferecias mar e praia, gelados e jantares, passeios e amigos, um espaço liberto da história e da vida, como um parque de diversões imenso e eterno onde cada um encontra aquilo que prefere.
A mim trouxeste amor e amizades.
Quantos amigos e namoradas trouxe eu para te partilhar com eles? E para partilhá-los contigo não menos.
Ah, algarve, trouxeste-me fotografias de um passado longínquo, os meus avós e pais e tios quando tinham a minha idade e também te viveram. Unidos no passado em ti, grande pacifista que és.
As ruínas de hoje lembram-me das glórias e amores passados, e as ruínas fazem-se tão belas como as memórias, porque são beijadas por ti.
Ah, algarve, quando eu era criança–
E hoje que sou adulto e moro em ti, transformo-me lentamente em não sei bem o quê, espero conseguir trazer comigo sempre a tua quente brisa e doce aroma.

As folhas no chão

As folhas no chão tão castanhas e douradas,
A luz amarela e transparente salpicada por entre os ramos da árvore.
As pequenas palhas já secas, crescidas entre as pedras da calçada.
Um pedaço de vista tão pequeno, tão insignificante, tão belo.
A chegada do outono anunciada nas sombras douradas, nas folhas secas, na brisa que espreita, no miar do Baltazar que mergulha neste cenário.
Também existem alguns verdes e amarelos nas folhas espalhadas.
Mas aquilo que mais prazer me dá é o vento.
O sopro da vida na natureza plácida.
O som de fundo e da nossa volta.
Vem do desconhecido e desaparece para o infinito.
Tanta liberdade que o vento tem, pobre louco quem o tenta capturar.
O melhor que podemos fazer é surfá-lo.
Será que o vento se sente livre, ou sopra daqui para ali por forças superiores a si mesmo?
O vento não tem escolha, mas é magnânimo no seu soprar.
E nós, que escolha temos?

Cadela

A cadela com as suas barbas pelo chão
Ouve o chamamento da rola e levanta o olhar.
O seu focinho aponta para os fantasmas,
São eles que alimentam esta vida.
Ela levanta-se e escolhe cuidadosamente uma amêndoa caída.
Parte-a nos seus dentes robustos, come-a,
E marca o tempo com o seu mastigar.

Árvores, catedrais

Amendoeira, prelúdio

Estou aqui sentado, vejo aqueles que amo à minha frente. Sou abençoado.
Chove árvore, preconiza o final do verão.
Verão, quando dás finalmente lugar ao Outono?
Já te sinto as costas frias.

Amendoeira

Quando eu era criança já tu eras adulta,
Agora que estou velho vejo-te anciã,
Quantos anos terás mais para dar?
Ontem choveste flores em mim, e eu o que te dei?
Uma infância perdida, uma amêndoa verde comida?
Estás aqui e fazes parte deste sítio e de mim.
Não, hoje vejo que eu e este sítio é que fazemos parte de ti.
Existes esquecida, e que existência mais real pode ser tida?
Agora que te vejo e cheiro e sinto, não sei dizer se és mais real ou mais memória.
Espírito algarvio, a tua brisa quente sopra do passado,
E para onde vai?

Azinheira

Azinheira que está tão perto e tão discreta,
Não tenhas medo de crescer,
És jovem e vigorosa, porque te escondes?
Por não seres oliveira é que gosto de ti,
Pela tua fruta amarga ainda guerras serão travadas,
Porque te escondes?

Pinheiro Manso

A tua capa abraça-nos ternuramente,
Quente, como esta página onde escrevo estes versos.
Estiveste sempre lá e eu não dei por ti,
Agora amo-te como quem ama o oceano.
Dás o fruto mais delicioso de todas as árvores
Mas nós não o colhemos. Satisfaz-nos a ideia do teu sabor.
A tua copa é quente mas a tua sombra refresca-nos o verão.
És como um bróculo que respira vida e emana liberdade, e todos os anos cresces sem darmos por ti, até que um dia te fazes imenso, quase de repente, mas nós é que tínhamos os olhos fechados.
Pinheiro manso, és, estás, foste, serás.

Eucalipto

O teu aroma é como a tela para a minha infância,
Fresco e verde, doce perfume que marca a chegada do verão.
Ergues-te alto e imponente, indiferente ao tempo e ao vento que passam por ti.
De quando a quando ofereces uma pernada aos deuses, é o preço a pagar pela tua insolência, quem te mandou chegar aos céus?
Ai de nós que estejamos prolongados sob o teu albergue, um dia haveremos de sentir o teu chicote.
Por isso te amamos, selvagem e livre como és.
Dizem que não pertences a esta terra, é porque não vêem que esta terra te pertence.

Figueira (lázaro das árvores)

Renasces eterna para o verão. Dormes no inverno.
Não é preguiça, é força de ser.
Para dares o fruto mais doce tens que dormir o sono mais profundo.
Todos se sacrificam a teus pés, mas tu nunca quiseste fazer parte disso.
O teu aroma perfuma o fim dos nossos verões,
Presente mais doce não existe.
Em ti existe um templo, está aberto metade do ano, entramos pela tua copa e lá existe a sombra que abraça.
Ah comer um figo, que alegria.

Sobreiro

Vejo-te aqui no Algarve longe dos teus irmãos Alentejanos,
Mas não te ralas muito com isso.
A tua paciência é infinita e não precisas de muito para ser, és o teu próprio universo.
Despimos-te de década em década porque és generoso e mesmo despido manténs a tua dignidade.
Ano após ano cantas ao sol, ou será um choro?
Eterno templo dos pastores cansados, és o nosso orgulho e o nosso ouro.

Laranjeira

Dá-nos laranjas e flores fragrantes, laranjeira.
Laranjeira dás-nos tudo o que és e tens, e nós recebemos, laranjeira.
Que alegria beber o sumo da tua fruta, o teu sumo, laranjeira, o teu sumo.
O teu sumo é o nectar solarengo desta terra, laranjeira, é doce doce, como dizem as pessoas daqui que precisam de vender o teu sumo para viver.
É doce doce, laranjeira, doce como os dias passados e os dias futuros, e mais doce ainda para quem o saboreia hoje.
Ah laranjeira, laranjeira, trazes música aos pomares das nossas vidas.

Hirto Cipreste

Conheço-te desde que me conheço a existir,
E és igual ao que sempre foste.
Não cresces? Eu cresci.
Gostava de te ver mais alto, mais verde, mais largo, mais antigo, tal como eu.
Mas cipreste, será verdade, olho-te com renovada atenção e parece-me ver algo mais.
Não me recordo deste teu lado ressequido, ou destes ramos secos que disparam por entre os verdes, ou a tua ponta tão cega (pouco afiada).
Ah, cipreste, afinal não me abandonaste ao tempo.
Mostras-me como a eternidade existe no momento, e como sem a morte no painel de fundo tudo seria fútil e estúpido.
Relógio discreto, o ritmo da vida também em ti deixa marcas/te marcou.
Atravesso-te o espírito e compreendo que não quero nada, mas existo.
Vejo-te ao doce sabor dos elementos e fico com vontade de dançar.
Belo cipreste, mostras-me o que é um amigo.

RAKU/Terra Sigilatta

A year ago I embarked on a pottery journey. It started as an experiment with friends but soon after I started attending a weekly class, then a bi-weekly class, and after a couple of months I got my wheel and set up a small home studio.

This September 2022, I had the absolute pleasure of attending a workshop in the awesome @oficinanaescola with the master @naiimpottery where we learned how to work with Terra Sigilatta glazing. This millenary technique uses a special kind of earthenware, which we then fired in a Raku kiln – a Japanese method of firing ceramics that involves extreme temperature shocks.
It was a 3-day workshop filled with truly lovely people that I had the pleasure to learn and create with. We made everything from scratch: mixed the terra sigilatta materials, created the pieces, polished them, decorated them, bisque-fired them (thank you Yishai and Sara!), and on the final day of the workshop, we glazed and fired our pieces in the Raku kiln.

It’s hard not to become emotional seeing the incandescent pots being carefully lifted out of the kiln. How they cool down to suddenly reveal incredible colors and patterns; the final scrubbing and washing of the pieces to reveal them in all their details. There’s a beautiful alchemy at play here, an extraordinary transformation of materials using fire and water.
To me, these pieces represent the beauty of life in all its imperfection and unpredictability. They were an exercise in expression and improvisation, a dance between careful planning (testing out materials, the different permutations of glazes & base colors), and unconscious expression.

There’s a beautiful stillness about the whole process that is very grounding and a great teacher. The mind doesn’t wonder when I’m working with ceramics. I’m entirely focused and present in it. It is also a humbling practice, as failure is a big part of the process.

Thank you Yishai for this incredible learning experience.

Escrever sem escrever

14/03/2022

Hoje apercebi-me que tenho dias em que escrevo sem caneta nem papel. Escrevo com o corpo no espaço como uma dança do espírito. Não é como sonhar acordado ou pensar, nada disso. É sentir de forma organizada, poética, ser-se atravessado pelos ritmos do mundo e marcar o compasso no coração.

Estas palavras são água do mesmo rio depois de ele já ter percorrido centenas de quilómetros mas não são escrita sem escrita. A forma mais pura de todas é aquela que não se materializa no mundo dos objetos. Permanece leve e transparente como uma criança em todo o seu potencial não manifesto. Este acto de trazer a caneta ao papel é sujo e imperfeito mas é a única maneira que temos de oferecer escrita uns aos outros. 

Casamento, tragédia e beleza

Existe beleza sem tragédia, afinal? Um dia destes fui a um casamento bonito e trágico. Bonito de ver as famílias juntas e amigos unidos para celebrar. Foi mais bonito vê-los antes da festa do que durante a festa. No antes vê-se um ambiente natural e adocicado pela expectativa da celebração. A família a interagir e trabalhar junta em tarefas de decoração e organização do evento. Formiguinhas em sintonia, cada uma com o seu trabalho e destino bem definidos, e felizes com isso.

Na festa, junta-se a tragédia. Na festa temos finalmente a colheita dos frutos do trabalho. Não se deve descurar a força da celebração e do ritual. A tragédia está presente, no entanto. O jovem casal dá tudo, está contente, e quer trazer toda a gente para o seu barco do amor e da presença. E nós enquanto convidados temos o dever de durante aquelas horas trazer a nossa presença, despir as vergonhas e preconceitos, despir tudo, e celebrar a fundo. A tragédia é ver o quão poucas pessoas são capazes de se despirem, de tirarem a máscara e se juntarem aos noivos que tanto trabalharam e gastaram para estar ali. O mínimo que podemos fazer por eles, se não por nós próprios também, é dar tudo, brilhar alto, uma chuva de estrelas, um conjunto de luas a iluminar o céu. E porque não?

Na Olaria

A falar com a Catarina (professora de português que está grávida) sobre a Mensagem de Fernando Pessoa, e a resposta dela quando lhe perguntei se achava que “era a hora”, ela responde-me com o termo literário “deitico” – elemento linguístico que não tem sentido por si só, pelo que a sua função é fazer referência, num enunciado, à situação, ao momento de enunciação ou aos interlocutores.

Deu depois o exemplo do sinal na Farmácia que lê “Volto já”, o que faço eu? Espero 5 minutos. E passados 15 minutos o que é que faço depois de não aparecer ninguém? Talvez vá embora. O sinal “volto já” talvez estivesse ali plantado há anos. Não vamos muito a fundo nesta questão, mas sinto potencial. 

Ocorre-me também ela a dizer que tinha uma perspectiva de vida e de morte meio diferente, algo afetada pela sua história. Isto acerca do covid. Ela acaba por nos dizer que tem um cancro no sangue. Falou-se tão pouco depois nesse facto life changing. Como se ninguém simpatizasse com a pessoa dela, mas que é bom pelo menos perguntar, mostrar alguma preocupação, mas nada, eu incluído. Sente-se também ela a querer a sua própria cadeira. 

Mas ela diz-nos aquilo e nós ok tudo bem, passamos por cima dessa conversa. É de um egoísmo tal. Absurdo. Estou a adormecer a escrever isto, amanhã ou depois acabo.