Poetry

  • Charuto

    Uns fumam charutos e conquistam mundos,
    Outros fumam charutos e conquistam ideias,
    Nós fumamos charutos e conquistamo-nos.
    Enleados pelo sabor do tabaco, por estas folhas enroladas por mãos distantes, aproximamo-nos de nós próprios.
    Na grande mesa da vida, jantamos maneiras de ser e de ver, e a sobremesa que acompanha é a deliciosa crítica do outro.
    Como digestivo, a confissão da alma.
    Neste banquete vale a pena participar e queimar, lentamente, atempadamente, cuidadosamente, as dúvidas e os medos, até que sobre apenas um esculpido eu.
    O charuto eleva, torna o pensamento mais fluido, e o coração mais pronto.
    Assim se cria um novo ideal para amanhã seguir.
    As nossas preces são aqui forjadas. As nossas falhas são aqui consagradas. Os nossos sonhos erguem-se em fumo aromatizado que impregna os cabelos e dedos que articulam as ideias que não funcionam e morrem em vez de nós.
    Um purgatório aromático.

    28/10/24

  • Ponte da Misarela

    Selfie com a Minnie, a ponte por trás,
    Perco a banha num acordo com o Satanás.
    Água limpa, em terra limpa, tanto bate até que chora.
    Rugidos. Lendas. Vento. Mergulhos.
    Telemóveis roubam fotografias, já nunca se vê uma máquina fotográfica.
    Este rugido soa longe, mas não tão longe assim.
    A água leva o tempo, e o tempo leva tudo. Não sobra nada.
    Bate um coração ao meu lado, e faz música com tal bravado, que se ouve por cima da música do tempo que a água levou.
    Existe dança aqui. A rocha antiga que é como uma bisavó esperta e marota e generosa, e que acha que a sua generosidade é dar ao bisneto uma nota que antigamente valia muito, mas hoje vale muito pouco; mas a sua generosidade é a sua presença pura e absoluta e antiga.
    Uma dança cintilante entre o eterno e o ancião. As árvores são aqui as adultas que supervisionam as crianças rapozas e lebres e peixes e rãs.
    Este sítio reza uma lenda antiga, uma história sobre o bem e o mal, uma imagem pintada com enxofre e sange.
    Misarela, misarela… Miserável misarela, maravilhosa misarela.
    O sol desapontou e pôs-se cedo. Tem de se guardar para os sítios que carecem mais dele.
    Aqui nesta dança ele não precisa de iluminar tarde… coisas íntimas e privadas raramente precisam de pôres-do-sol.
    Sol, sol, sal, sal… sal!
    Solstício do fugitivo que leva a vida numa mão, e a morte na outra.
    Desta vez criaram-lhe uma ponte, no futuro quem sabe quanta sorte terá.
    O tempo passa e a sorte é incerta – às vezes a sorte é azar, e azar é sorte.
    Aqui na ponte do Diabo, entre o céu e o inferno, jaz um purgatório privado.
    O valete pergunta:
    – Vai subir, ou vai descer?

    18/07/2024

  • Katana

    Tenho saudades de rezar.
    Tenho saudades de ser eu.
    No Japão, onde era anónimo,
    Sentia-me visto e abraçado pelo universo em todo o meu ser.

    Cada prece, uma afirmação.
    Cada pedido, uma entrega.
    Deixei lá muitos incensos acesos,
    Muitas moedas atiradas, muitos desejos de mim.

    Cada desejo é uma tabuleta que diz – Eu sou, e eu quero!
    Eu existo, e ocupo o meu lugar, que pertence a esta terra!
    Os meus sonhos falam do universo, são conversas sem palavras.
    De lá, trouxe comigo o sonho da katana.

    O fulcro de uma alma.
    A loucura de um homem, que reside na sua procura.
    Cada katana conta uma história eterna –
    A história da vida e da morte, entre o ser e o dormir.

    Chorei quando vi aqueles objetos pela primeira vez.
    Energia atómica condensada naquela ferramenta.
    Uma ferramenta que nos pode ascender às estrelas.
    Todo eu sou prece quando contemplo aqueles objetos sagrados.

    Deixo de existir, fico vazio, para dar espaço ao infinito;
    Desfaço-me sem pensar, e sou mais real nesses momentos
    Do que em quaisquer outros na vida.

    Aqui não sei rezar.
    Perco a voz.
    Não sei onde ela ficou, talvez junto da violência magnânima
    Das katanas no Japão.

    Também eu fui forjado no fogo da minha infância
    E dos meus desejos proibidos.
    Também eu sou capaz de dar vida, ou trazer morte.
    Também eu tenho uma bainha prática e ritualística.

    Mas tenho estado embainhado tantos anos. Tantos tantos anos.
    E quando finalmente me desembainho, não vejo nada à volta para cortar.
    Como um moinho sem pás numa colina onde o vento deixou de soprar.

    Tanta melancolia vem de onde?
    Dos materiais dos quais me fizeram,
    Do processo pelo qual me criaram,
    Ou do caminho que não segui?

  • Espelho

    Infinito espelho de mim e dela,
    Onde é que eu acabo e ela começa?
    Estas loucuras vêm de onde?
    Olho para mim e sinto-me cego, mas olho para ela e vejo-me com tanta clareza, e não gosto do que vejo nela em mim.
    Afinal, o que é gostar?
    E afinal não era também uma escolha que se fazia sempre? Como escolher amor, se não sinto amor?
    Como amar o outro, se não me amo a mim?
    Essa velha batalha sempre presente não me largará tão cedo, quantos espelhos mais preciso eu de partir por neles me repudiar?
    Velho monstro, aprender a amar o monstro, velho monstro, é preciso um mantra para aprender a amar o velho monstro.
    Ela ajuda-me e mostra-me, e eu repudio. Vou para a cave dos sofrimentos esquecidos dos meus antepassados, tem tanto puxar essa cave.
    Essa escuridão puxa-me com tanta força, mas eu quero luz e sol, e amar como o sol brilha em tudo e todos incondicionalmente, e que aqueles se perderam não conseguem tolerar.
    Uma prece a mim mesmo para seguir a luz, seguir a luz, ser a luz.

    08/08/2023

  • O Moleiro

    O moleiro velho dorme na sua velha cama no moinho mais velho da velha ilha da Madeira.
    O moleiro é velho velhinho, e os seus olhos contam velhas histórias de coisas que já foram.
    A casa do moleiro é dentro do seu moinho. A sua cama pequena é abraçada por três paredes e uma velha cortina, e o velho moleiro só ali cabe deitado em posição fetal.
    A sua velha sala de estar também é uma sala de visitas para os visitantes e habitantes que por ali passam para ver e para levar farinha moída pelo velho moleiro.
    A sala está coberta de postais e papéis cheios de santas e santos e Virgens Marias e nossos senhores Jesuses Cristos, e velhas velas apagadas, e moedas e notas velhas deixadas como donativos pelos turistas que por ali passam ao longo dos anos e são sempre os mesmos, nem velhos nem novos, mas intemporais e suspensos no tempo.
    Mas o moleiro e o seu moínho são velhos, já disse que eles são velhos?

    As madeiras do moinho estão gastas e marcadas pelo tempo, e parecem-se com os olhos enrugados do moleiro. O chão de madeira range e o telhado de madeira é baixo e verga as costas a quem por lá anda, como as costas vergadas e rangidas do moleiro. As paredes são apertadas e os dois quartinhos pequenos e apertados também.
    Lá em baixo, a água fresca e límpida que corre e gira as pás do moinho do moleiro é como o sangue da terra que alimenta a vida. A água vem da montanha e é sempre nova, sempre a mesma mas sempre outra, e essa água gira e gira as grandes mós redondas enormes e pesadas que moem as farinhas que são hoje de trigo e de centeio.
    Do que seriam as farinhas nos velhos tempos de quando o moleiro não era velho?
    Mas o moleiro sempre foi velho, porque o moleiro é como um anjo que une o velho passado ao presente fugaz e nos lembra de quem somos e de onde viemos, que é da terra.
    Como é possível nos esquecermos de quem somos e de onde viemos quando o velho moleiro está ali com a farinha do povo a ser moída para sempre?
    Nunca senti um cheiro tão fresco e tão do presente como senti ali naquele velho antigo sujo e belo moinho, e enquanto as rodas e as mós e todos os mecanismos rodarem e fizerem farinha que é para o pão das gentes do sítio do moínho, o mundo continuará a girar, perpetuamente unido no passado e no presente.

    PS. O velho moleiro é um santo e o velho moinho um santuário.

    10/07/2023

  • Madeira

    A Madeira é um sítio com muitas flores, e muito azul. E muito verde.
    E outras cores também.
    Fui feliz na Madeira. Não sei se trouxe a felicidade comigo ou se ela despertou em mim lá.
    A Madeira tem muitas cores, e eu também.
    Anda-se por lá e a paisagem muda ao virar de uma esquina, e eu também.
    O azul absoluto, o mar imenso, no entanto, está lá sempre e relembra-me de quem sou. Também o mar muda de cor com o passar das nuvens e da lua e do sol e do vento, mas o mar é sempre o mar, e eu sou sempre eu, e tu és sempre tu.
    A Madeira é húmida e quente e fria e densa e árida e grande e pequena, tudo ao mesmo tempo. É uma ilha, a Madeira.
    E nós, somos ilhas? E nós somos ilhas, sozinhos em nós mas lado a lado com os nossos arquipélagos de gentes.
    “Nenhum homem é uma ilha,” mas uma ilha tem tanto, talvez quem escreveu isso nunca tenho ido à Madeira perceber que um continente é tão ilha como uma ilha como a Madeira.

    07/06/2023

  • Travo

    Em 6 anos nunca te vi, mas ontem, quando fumámos uma cigarrilha juntos no alpendre frio ao luar, amei-te.
    Deus, de onde vem o amor? Vivemos seis anos juntos cheios de amor, amor e discussões, mas amor. Só que ontem, amei-te.
    Seguraste na cigarrilha com a certeza iluminada de quem dá um último suspiro. Nunca vi ninguém a segurar nada nas suas mãos como tu seguraste. Usaste três dedos, ou foram dois? E de repente senti- me materializado no mundo.
    Lúcido e nítido senti sem palavras que te amava. Não sei para onde foram os seis anos, esvaíram-se como cinzas que agora fazem parte da história.
    Passaste-me a cigarrilha e dei um travo sem saber como segurá-la, estúpido e presente. Procurei algo no sabor do fumo e talvez me tenha apercebido que não existe nada para procurar nesta vida. Encontramo-nos e desencontramo-nos mais ou menos por acaso, e se tivermos sorte abrimos um dia os olhos para ver mãos assim.
    Devolvo-te a cigarrilha e dás um travo rápido. A ponta ilumina-se e nem um momento a seguir o fumo escapa-te pela boca entreaberta. Nesse momento amei-te eternamente e percebi que 6 anos não são nada, 6 anos são como seis segundos.
    Quão fugaz é a eternidade, um rodopio cego e incandescente. Nunca vi ninguém a fumar com a rapidez soprada como tu, uma rapidez enraizada e inevitável como a força da gravidade.
    E no final da cigarrilha?
    Para onde vai a eternidade quando as mãos deixam de segurar e a ponta laranja se extingue?
    Para lado nenhum. Ela paira imóvel e etérea e nós pobres doidos mergulhamos e com sorte dançamo-la até ao nascer do sol.
    Mas chegou a hora de descruzar as mãos, de soltar a respiração e andar à beira-mar deixando e querendo ver as pegadas apagadas pela maré.
    A lua sempre nos trás novas marés, novas eternidades, novas cigarrilhas e mãos para nos segurar.

    20/02/2022

  • Cinzento

    Está um dia cinzento de brisa suave.
    Penso cinzento em como não tenho nada para escrever a não ser isto, verificações fúteis do presente e do imediato.
    O cinzento não me deixa agarrar a nada, e sinto-me livre e rápido como os raios de sol que atravessam a atmosfera sem aquecer nada por não terem objeto por onde refletir o seu calor.
    É um dia de mudanças.
    Também o café está cinzento, mesmo estando delicioso como todos os dias.
    Um dia como uma crisálida perfeita em que toda a existência à minha volta se funde numa polpa de cor indeterminada, cizenta, e mais tarde convalesce num belo dia de sol ou num belo dia de chuva e vento. Dias perfeitos que respiram tranquilos, até os pássaros à minha volta parecem cantar com mais vigor do que nos outros dias.
    Encho-me de ar limpo, endireito as costas e relaxo os ombros. Absorvo-me e transcendo-me por instantes que não duram sequer um piscar de olhos na sua eternidade.
    Sinto futuros hipotéticos como barro suave ainda por moldar nas minhas mãos.
    Amasso este futuro nestas minhas mãos fortes e ombros preparados, e deito fora todos os espelhos falsos que tenho em casa.
    Este cinzento limpo é mais puro do que sei lá o quê, penso eu enquanto observo uma abelha e o remexer da terra na calçada pela a força do vento causado pelo seu bater de asas.
    Hoje transformo o néctar do passado no mel para o futuro, e assim me sustenho ano após ano.

    30/05/2022

  • Poema ressabiado no2

    Vai para o caralho (e leva-me contigo se ainda quiseres).

  • Solitude

    In my solitude, what does my spirit reach for?
    The dreaded car sounds sound so sweet to me today.
    Where do they come from, and where are they going?
    Rumi sits next to me, a good gift from a better friend. In him I see the whirling infinitude that makes and breaks everyone.
    I am everyone I and I am myself too.
    Butterflies never fail to bring me back to this world.
    They fly so gently, flutter so elegantly, eternally gliding towards better tomorrows, even though they don’t know what that means, and neither do I.
    I am kissed by the sun, I feel so sensual in its light. Ah, and what a bright light it is, revealing everything.
    I fly above the trap of my wishes, these polished mirrors bright and alluring, and the dog stands next to me just as she is, being always there without following me.
    I taught her to be my master, and now in her I see beauty and salvation.
    Does anyone realize what it is to be alive, do I?
    I have searched so much, asked and wondered so much, so much, so much.
    I am that search, that wonder, it runs in my blood and holy spirit, and here is what I have found so far –
    To be alive is the greatest thing there is.

    23/02/2022

  • Poemas sob uma amendoeira algarvia

    Nostalgia Algarvia

    Ah, Algarve, quando eu era criança tu eras a minha terra prometida.
    Eu não o sabia, mas o meu corpo sentia-te o calor e o doce e estava sempre ansioso por voltar.
    Oferecias tanto, e nós queríamos tudo.
    Oferecias mar e praia, gelados e jantares, passeios e amigos, um espaço liberto da história e da vida, como um parque de diversões imenso e eterno onde cada um encontra aquilo que prefere.
    A mim trouxeste amor e amizades.
    Quantos amigos e namoradas trouxe eu para te partilhar com eles? E para partilhá-los contigo não menos.
    Ah, algarve, trouxeste-me fotografias de um passado longínquo, os meus avós e pais e tios quando tinham a minha idade e também te viveram. Unidos no passado em ti, grande pacifista que és.
    As ruínas de hoje lembram-me das glórias e amores passados, e as ruínas fazem-se tão belas como as memórias, porque são beijadas por ti.
    Ah, algarve, quando eu era criança–
    E hoje que sou adulto e moro em ti, transformo-me lentamente em não sei bem o quê, espero conseguir trazer comigo sempre a tua quente brisa e doce aroma.

    As folhas no chão

    As folhas no chão tão castanhas e douradas,
    A luz amarela e transparente salpicada por entre os ramos da árvore.
    As pequenas palhas já secas, crescidas entre as pedras da calçada.
    Um pedaço de vista tão pequeno, tão insignificante, tão belo.
    A chegada do outono anunciada nas sombras douradas, nas folhas secas, na brisa que espreita, no miar do Baltazar que mergulha neste cenário.
    Também existem alguns verdes e amarelos nas folhas espalhadas.
    Mas aquilo que mais prazer me dá é o vento.
    O sopro da vida na natureza plácida.
    O som de fundo e da nossa volta.
    Vem do desconhecido e desaparece para o infinito.
    Tanta liberdade que o vento tem, pobre louco quem o tenta capturar.
    O melhor que podemos fazer é surfá-lo.
    Será que o vento se sente livre, ou sopra daqui para ali por forças superiores a si mesmo?
    O vento não tem escolha, mas é magnânimo no seu soprar.
    E nós, que escolha temos?

    Cadela

    A cadela com as suas barbas pelo chão
    Ouve o chamamento da rola e levanta o olhar.
    O seu focinho aponta para os fantasmas,
    São eles que alimentam esta vida.
    Ela levanta-se e escolhe cuidadosamente uma amêndoa caída.
    Parte-a nos seus dentes robustos, come-a,
    E marca o tempo com o seu mastigar.

    Árvores, catedrais

    Amendoeira, prelúdio

    Estou aqui sentado, vejo aqueles que amo à minha frente. Sou abençoado.
    Chove árvore, preconiza o final do verão.
    Verão, quando dás finalmente lugar ao Outono?
    Já te sinto as costas frias.

    Amendoeira

    Quando eu era criança já tu eras adulta,
    Agora que estou velho vejo-te anciã,
    Quantos anos terás mais para dar?
    Ontem choveste flores em mim, e eu o que te dei?
    Uma infância perdida, uma amêndoa verde comida?
    Estás aqui e fazes parte deste sítio e de mim.
    Não, hoje vejo que eu e este sítio é que fazemos parte de ti.
    Existes esquecida, e que existência mais real pode ser tida?
    Agora que te vejo e cheiro e sinto, não sei dizer se és mais real ou mais memória.
    Espírito algarvio, a tua brisa quente sopra do passado,
    E para onde vai?

    Azinheira

    Azinheira que está tão perto e tão discreta,
    Não tenhas medo de crescer,
    És jovem e vigorosa, porque te escondes?
    Por não seres oliveira é que gosto de ti,
    Pela tua fruta amarga ainda guerras serão travadas,
    Porque te escondes?

    Pinheiro Manso

    A tua capa abraça-nos ternuramente,
    Quente, como esta página onde escrevo estes versos.
    Estiveste sempre lá e eu não dei por ti,
    Agora amo-te como quem ama o oceano.
    Dás o fruto mais delicioso de todas as árvores
    Mas nós não o colhemos. Satisfaz-nos a ideia do teu sabor.
    A tua copa é quente mas a tua sombra refresca-nos o verão.
    És como um bróculo que respira vida e emana liberdade, e todos os anos cresces sem darmos por ti, até que um dia te fazes imenso, quase de repente, mas nós é que tínhamos os olhos fechados.
    Pinheiro manso, és, estás, foste, serás.

    Eucalipto

    O teu aroma é como a tela para a minha infância,
    Fresco e verde, doce perfume que marca a chegada do verão.
    Ergues-te alto e imponente, indiferente ao tempo e ao vento que passam por ti.
    De quando a quando ofereces uma pernada aos deuses, é o preço a pagar pela tua insolência, quem te mandou chegar aos céus?
    Ai de nós que estejamos prolongados sob o teu albergue, um dia haveremos de sentir o teu chicote.
    Por isso te amamos, selvagem e livre como és.
    Dizem que não pertences a esta terra, é porque não vêem que esta terra te pertence.

    Figueira (lázaro das árvores)

    Renasces eterna para o verão. Dormes no inverno.
    Não é preguiça, é força de ser.
    Para dares o fruto mais doce tens que dormir o sono mais profundo.
    Todos se sacrificam a teus pés, mas tu nunca quiseste fazer parte disso.
    O teu aroma perfuma o fim dos nossos verões,
    Presente mais doce não existe.
    Em ti existe um templo, está aberto metade do ano, entramos pela tua copa e lá existe a sombra que abraça.
    Ah comer um figo, que alegria.

    Sobreiro

    Vejo-te aqui no Algarve longe dos teus irmãos Alentejanos,
    Mas não te ralas muito com isso.
    A tua paciência é infinita e não precisas de muito para ser, és o teu próprio universo.
    Despimos-te de década em década porque és generoso e mesmo despido manténs a tua dignidade.
    Ano após ano cantas ao sol, ou será um choro?
    Eterno templo dos pastores cansados, és o nosso orgulho e o nosso ouro.

    Laranjeira

    Dá-nos laranjas e flores fragrantes, laranjeira.
    Laranjeira dás-nos tudo o que és e tens, e nós recebemos, laranjeira.
    Que alegria beber o sumo da tua fruta, o teu sumo, laranjeira, o teu sumo.
    O teu sumo é o nectar solarengo desta terra, laranjeira, é doce doce, como dizem as pessoas daqui que precisam de vender o teu sumo para viver.
    É doce doce, laranjeira, doce como os dias passados e os dias futuros, e mais doce ainda para quem o saboreia hoje.
    Ah laranjeira, laranjeira, trazes música aos pomares das nossas vidas.

    Hirto Cipreste

    Conheço-te desde que me conheço a existir,
    E és igual ao que sempre foste.
    Não cresces? Eu cresci.
    Gostava de te ver mais alto, mais verde, mais largo, mais antigo, tal como eu.
    Mas cipreste, será verdade, olho-te com renovada atenção e parece-me ver algo mais.
    Não me recordo deste teu lado ressequido, ou destes ramos secos que disparam por entre os verdes, ou a tua ponta tão cega (pouco afiada).
    Ah, cipreste, afinal não me abandonaste ao tempo.
    Mostras-me como a eternidade existe no momento, e como sem a morte no painel de fundo tudo seria fútil e estúpido.
    Relógio discreto, o ritmo da vida também em ti deixa marcas/te marcou.
    Atravesso-te o espírito e compreendo que não quero nada, mas existo.
    Vejo-te ao doce sabor dos elementos e fico com vontade de dançar.
    Belo cipreste, mostras-me o que é um amigo.