Ponte da Misarela

Selfie com a Minnie, a ponte por trás,
Perco a banha num acordo com o Satanás.
Água limpa, em terra limpa, tanto bate até que chora.
Rugidos. Lendas. Vento. Mergulhos.
Telemóveis roubam fotografias, já nunca se vê uma máquina fotográfica.
Este rugido soa longe, mas não tão longe assim.
A água leva o tempo, e o tempo leva tudo. Não sobra nada.
Bate um coração ao meu lado, e faz música com tal bravado, que se ouve por cima da música do tempo que a água levou.
Existe dança aqui. A rocha antiga que é como uma bisavó esperta e marota e generosa, e que acha que a sua generosidade é dar ao bisneto uma nota que antigamente valia muito, mas hoje vale muito pouco; mas a sua generosidade é a sua presença pura e absoluta e antiga.
Uma dança cintilante entre o eterno e o ancião. As árvores são aqui as adultas que supervisionam as crianças rapozas e lebres e peixes e rãs.
Este sítio reza uma lenda antiga, uma história sobre o bem e o mal, uma imagem pintada com enxofre e sange.
Misarela, misarela… Miserável misarela, maravilhosa misarela.
O sol desapontou e pôs-se cedo. Tem de se guardar para os sítios que carecem mais dele.
Aqui nesta dança ele não precisa de iluminar tarde… coisas íntimas e privadas raramente precisam de pôres-do-sol.
Sol, sol, sal, sal… sal!
Solstício do fugitivo que leva a vida numa mão, e a morte na outra.
Desta vez criaram-lhe uma ponte, no futuro quem sabe quanta sorte terá.
O tempo passa e a sorte é incerta – às vezes a sorte é azar, e azar é sorte.
Aqui na ponte do Diabo, entre o céu e o inferno, jaz um purgatório privado.
O valete pergunta:
– Vai subir, ou vai descer?

18/07/2024